Inconclusos Online

Rasuras

Ensaios

Eu busco me encontrar, mas não desejo trombar comigo no escuro, não gosto de imprevistos. Preciso me encontrar suave…desfazer rasuras…ensaios.

O caminho é desconhecido, a noite está escura, fechado o tempo.

Ouço os meus passos, atenta.

Eu busco me encontrar, mas não desejo trombar comigo no escuro, não gosto de imprevistos. Preciso me encontrar suave…desfazer rasuras…ensaios.

Nessa estrada não dá pra me distrair. Porque eu estou me buscando antes de encontrar minha águia.

Ela deveria me guiar. Mas é selvagem. Arisca. Faz tempo não pousa no meu antebraço como antes.

Ela cresceu. Está enorme. Pode ser assustador ter uma águia no seu antebraço olhando fixamente pra você.

Mas bom…eu chamo, ela não vem.

O segundo presságio, me disse minha criança interior, é buscar a estrada de girassois. Mas a noite! Não se trata de um campo de tapete amarelo, mas de flores espaçadas, porque a mata é selvagem.

Às vezes a lua atravessa as folhas das árvores, mas são pequenos feixes de luz…e havia outras coisas. Mas girassois ainda não vejo.

Havia outras coisas…folhas secas, pequenos insetos exóticos, rasuras…pedaços…da minha história…em rasuras de papel escritas com canetas de penas medievais…

Tentei ler, mas a luz não era suficiente. Não podia tocar. Quando eu ia com a mão para alcançar, as folhas de papel desapareciam…como num transe…

Mas eu estava e passei minha vida inteira muito lúcida. Então insisti…queria pegar as rasuras, ler, verificar se a história era o que foi. Mas era aproximar minha mão e eu tateava o nada absoluto.

Ri alto de espanto e desespero.

Onde estava minha história afinal?

Eu fui intuída a me buscar.

Não a tatear no escuro buscando girassois espaçados, sem a minha águia.

Continuei…a lamparina era o meu coração.

Meu intelecto não ajudava.

Caminhei abrindo espaço na mata. Ouvi barulho de água. Barulho bom. Folhas gigantes passando pelo corpo ao caminhar, delicadas e úmidas.

Pisei em uma pequenina fonte de água. Bebi a vontade. E senti uma vontade enorme de descansar. Então, fiz um amontoado de folhas secas e ali adormeci.

Sonhei com unicórnios e cavalos alados numa praia deserta. Cavalgavam tão rápido que pareciam voar.

Despertei…devo ter dormido um bom tempo. Abri os olhos e lá estava ela: minha águia.

Avisto ao longe os girassois. Muitos. Mas me desesperei, porque de onde podia ver, a estrada não tinha fim.

Como eu poderia por fim, me buscar? Pensei…talvez, eu possa retornar e ir juntando as rasuras da minha história…de dia não hão de desaparecer.

Então decidi fazer o caminho de volta. Desejava voltar à casa.

Andei…não havia rasura alguma. Chegando ao ponto de partida, onde a estrada começou, vi um livro enorme em cima de uma pedra envolta em um tapete verde rasante de pequenas

folhas. A águia, voou alto e como um raio, pousou ao lado do livro.

Eu gentilmente, o coração disparado…imaginei…me encontrei…aqui estará toda minha história, meu destino e todas as orientações de que preciso.

Abri! Eram páginas de um branco tão branco, folhas espessas que poderiam até cortar a pele de uma mão delicada como a minha. Folheei, a primeira, a segunda, a outra, outramais…fui até a última página. Todas vazias. Um livro em branco. Simplesmente. A brancura das páginas era intensa. Esperando para serem escritas.

A águia a me olhar fixamente…eu delicadamente peguei o livro, o aconcheguei no peito…e um vento forte levantou as rasuras na floresta…

Eram muitas…voavam dançando entre as árvores. O vento as foi levando para longe…lá onde deveriam estar os girassois.

Eu observei. O vento balançava os girassois e as rasuras dançavam.

Minha visão foi ficando turva. Me cansou forçar os olhos.

Eu me voltei obstinada a caminhar para o início da estrada. Meus passos estavam mais leves. Caminhava e as histórias tinham outros significados, outras já não significavam nada.

Eu precisei voltar para compreender.

Havia ciclos a serem encerrados.

E a oportunidade de escrever em páginas de um branco absoluto.

Assim como meus pensamentos estavam alinhados. A linha. O eterno retorno. Não havia necessidade de chegar ao fim da estrada para ter certeza de nada. Me encantava a trajetória até então.

A busca terminou.

25-11-24

H.C. 🌻🦅

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