Quando se usam palavras como ‘consciência’, ‘ego’, ‘realidade’ em textos, o normal é que as pessoas logo as associem à autoajuda, à religião ou a um orientalismo qualquer. São chavões. E sabem por quê? Porque não somos capazes de ouvir ou ler sem o ‘ego’ e observar a ‘realidade’ com ‘consciência’. Uma das coisas mais difíceis de se fazer é ouvir sem interpretar com os filtros do nosso conhecimento, passado e condicionamentos e, principalmente, sem as defesas do ego, aquele que nos faz acreditar que já sabemos de tudo e que o nosso primeiro julgamento é infalível.
Nada existe de metafísica nisso, nada de espiritual. Esqueçamos a filosofia, a ideologia, as crenças e as teorias quânticas e investiguemos o simples e básico, isso é, o cotidiano, o que vivemos agora, essa matéria concreta e visível que é a nossa casa, o nosso bairro, a nossa empresa e os seres à nossa volta.
Em primeiro lugar, vamos investigar a consciência e, antes ainda, o condicionamento – que é o maior inimigo dela. Somos condicionados pelo clima, pela região, pela naturalidade, pela genética; somos condicionados pelos instintos animais que acompanham a evolução da nossa espécie; somos psicologicamente condicionados pela nacionalidade, pela língua, costumes e tradições; ainda mais pela família, formação, sociedade, religiões, mídias e redes sociais. Somos profundamente e inevitavelmente condicionados, todos. Logo, nada há a fazer nesse sentido, exceto estarmos conscientes desse condicionamento. Em outras palavras, a consciência do condicionamento é a única maneira de evitarmos sua absurda interferência em nossos atos e para que saibamos ‘ouvir’ o mundo como ele é.
Por fim, vamos investigar juntos o ego e seu maior inimigo – a realidade. O ego se alimenta de todos os nossos condicionamentos e turva a nossa visão da realidade. Permite, irresponsavelmente, a criação das opiniões pétreas, das convicções indeléveis. Tudo no ego é ilusório – uma verdadeira máquina que só produz medo, conflito e insegurança, corrói a qualquer mínima possibilidade de livre pensamento, criação e inovação, e, claro, de maneira sub-reptícia, de forma a acreditarmos que seja nosso porto seguro, nossa razão, nossa solução de continuidade. Quando defendemos uma ideia, estamos, de fato, defendendo a integridade do ego. Afinal, para que servem os fatos, a realidade?
Nada disso é autoajuda, nenhum ‘ismo’, tudo é política. Haverá uma hora em que teremos que decidir se fazemos uma verdadeira revolução interior – com a consciência na observação da realidade e a dissolução do ego – para criarmos uma nova humanidade, ou se partimos para a inconsciência, divisão, o embate, o confronto, a ideologia, ignorando a realidade e fortalecendo o ego. A segunda opção é mais simples – basta deixar como está – abandonando nossas responsabilidades e acreditando que Deus olhará por nós.