Eu era muito jovem, quando Deus esteve pela primeira vez em nossa casa. Fiquei surpreso de Ele não estar preocupado com religião, morte, fé ou salvação. Estes são problemas inventados por Paulo! Disse-o, textualmente. Fiquei contente, porque o motivo da sua visita tinha a ver com poesia. Entretanto, obviamente perturbado com sua presença, entrei por justificações do tipo, lar vazio de amor, distanciamento da igreja… Deus ficou abismado. Sinceramente, abismado e sem entender o porquê de um jovem viver assombrado com sacramentos, obediências, comunhão.
– Profissão de fé?! – Meu caro, não há um só registro de que fui eu quem criou essas fábricas de culpas. Deixe-me fora. Parem de enfiar Deus em tudo. Eu vim te fazer uma simples visita. Não posso? Seria pedir muito? Pensei comigo. Se não foi Ele o responsável pela passagem do Grande Inquisidor em Sevilha. Qual a finalidade da Inquisição? Aquilo só poderia ser invenção de Dostoiévski. Mas, o que pretendia Deus com essa aparição em nossa casa? Passar a limpo as minhas dúvidas? Deus já não é tão gatinho, e a sua memória muitas vezes falha. Mas, Ele foi taxativo. “Sem confissão. Sem arguição. Sem qualquer assunto canônico, sobretudo, sem as indústrias da fé. Não me meta em confusões de sepulcros! Tudo isso, é invenção do esperto”.
As embromações das novas igrejas, Novas e velhas, Ele não as ignorava, e foi taxativo em afastá-las das obras divinas. Palavras do Senhor. “Aproveita a juventude, meu caro! Desvende os segredos do bom vinho. Esqueça a Igreja! A mãe de todo homem é uma boa cerveja. Pastores e padres são incapazes de manejar o sol e as conjunções de todo o azul. Eles mal aprendem a mergulhar no mar. Contemple a natureza. Estas ações são valiosas. Depois, ficou sério, folheou alguns livros e pediu-me que fechasse a porta. A curiosidade já destruía a contenção das encostas. Deus foi categórico em dizer.
“Busquei em toda eternidade ser assertivo. Porém, escrever certo por linhas tortas?! Esta é a metáfora mais infeliz”. Fiquei mudo, sem saber o que dizer. Vendo Deus tão íntimo em nossa sala, o pai pensou no Armagedon. A batalha final! Deus contra a sociedade iníqua! Correu para vestir as armaduras e as armas do tio Jorge. O velho se armou para a guerra. Tio Jorge vestiu seu terno de zinco, lamentou as suas incoerências e os seus modos, seu medo da morte vir pessoalmente nos autuar, em nossa própria casa.
“A morte já foi mais decente – Retornara à sala, o impávido tio Jorge. A morte, em outros tempos, nos levava a um hospital, ou num lugar ermo de desova. Mas, dentro de casa, fingindo-se de morta?”
Minha irmã pensou no fim do mundo. Ela ainda virgem…?! Mamãe ficou atrapalhada com a bagunça generalizada. Meu avô pensou em fracasso. Mesmo diante da imagem imorredoura de Deus, sorrindo do nosso embaraço, esses acontecimentos, ainda causam certos memes aonde passo. De verdade, Deus pretendia entender a maneira dos poetas “concatenarem” ideias, palavras e imagens. Concatenar: eu não conhecia a palavra e o meu pai desconhecia até que eu fosse um poeta. Mas deixou a novidade Inexprimível. Foi melhor assim.
Deus não tem a personalidade narcisista dos humanos, e a conversa foi amigável, como só compete a um Deus e a um poeta. Ele acendeu o cachimbo e elogiou o café de mamãe, depois ouviu com paciência as blagues de papai. Lá fora, o alvoroço virou comoção. A Estrela de Belém clareou os céus. Os sinos dobraram nas igrejas e os galos cantaram a Anunciação. Deus reconheceu tudo isso como perfumarias mundanas. Preferiu embevecer-se com os poeta que eu recitava de cor. Poetas divinos, concebidos sem bajulação.
Estando mais à vontade, participei-lhe do interesse das igrejas em visitá-lo. Foi o bastante para Ele deixar a nossa casa apressado, quase a correr pela favela, pulando as poças e os ratinhos de sonhos. Fiz-lhe companhia, até à via expressa, cuidando para que nada de mal lhe acontecesse. Deus caminhou pelo labirinto de casas, com a autoridade de um Deus, mas se manteve indiferente ao rosário de fome e às múltiplas carências que se mostravam pelo caminho.
A miséria saltava pelas janelas, subia nas árvores, plainava sob as nuvens, mas nada disso mereceu a especial atenção de Deus. “Este privilégio é dos homens!” Disse-o de alguma maneira. Agradeceu com sorrisos, as flores oferecidas ao longo do caminho, admirou os pobres e sua nobreza de alma, só não entendeu o porquê de tantas velas acesas e esdrúxulas ladainhas metidas a canção. Fechou os ouvidos aos cânticos e aos trinados frenéticos, sempre seguindo em frente, pondo-me a quase correr para acompanhá-lo. Sequer abaixou a cabeça para as balas que voaram em sua direção.
Em todos os natais, Ele retorna. Ao tocar o chão de minha rua, sinto sua angelitude, a aura divina e os corais de anjos se moverem por perto. Deus é a diluição transfigurada mais aparente a pairar sobre o ar que respiramos. Em minha aldeia, eu canto e revisito a condição livre, do pássaro. Celebro a vinda do nosso Deus, e visto-me com as roupas e as armas dos gentios. Tenho pedaços naturais de nuvens e de asas. Isso, Deus concedeu aos poetas, que são ondas etéreas, que viajam pelos cantões mais longínquos, sem outras causas, que não sejam a poesia.
Sou poeta homem, e muito agradecido de receber este presente em nossa casa. Quando entendi que Deus escolheu-me para ser poeta, trouxe como brinde, a certeza de que os deuses nos visitam e renovam as nossas asas, quando não funda uma oca em nossos peitos. Ele nos dá como plantio, campos insondáveis, intocáveis, invisíveis, na Eternidade.
Carlos Kahê
Uma resposta
…como só compete a um Deus e a um poeta…🌻