Poema verso poesia
Poesia é um achado em construção constante, e o verso é o elemento mais vaidoso da escrita; exigente e extremamente sedutor, ele pretende ser lido, relido, repetido, até transcender e hospedar-se em nossa mente. Em silêncio, o poema nos aguarda. Frio e imutável, ele se mantém parado na página, indiferente em seu estado gráfico, aguardando a nossa perseverança. Então, após entender que nos entregamos aos caprichos dos versos, ligamos cada palavra à sua ideia, é que o poema nos concede o direito de guardá-lo como recurso intelectual: valorosa conquista que poderemos adotar como matéria de conhecimento. Depois de todo esse processo, agora, refém dos seus encantos e exigências, já podemos recitá-lo de cor. Recitar um poema de cor é fazer-lhe uma declaração (pública) de amor. A perseverança traduziu-se em conquista.
Poeta algum, pelo fato de gozar da intimidade do verso, poderá afirmar que detém a chave do poderoso enigma que é a poesia. Não há revelações definitivas que a definam: se há melodia, dizemos que a linguagem é rítmica e não é sobre dança: mas, sobretudo, alteridade e semelhança; é sobre ocupar um lugar de graduação. Aí, ele exige a riqueza da metáfora e as divisões silábicas; tempo e não tempo; métrica e compasso. Os poemas têm natureza: lírico, épico ou dramático. Drummond foi enfático em dizer que o poema exige ritual. “Não faças versos sobre acontecimentos, afinidades, aniversários (…) incidentes pessoais não devem entrar na poesia.
Compreender um poema significa ouvi-lo até as palavras grudarem ao ouvido, aparecer diante dos olhos e entrar pela fase de contemplação. Ao chegarmos a esse estágio, a leitura vai exigir obstinação e silêncio. A leitura de um poema exige silêncio; quando não exige, ele provoca. Ler um poema é ouvi-lo com os olhos; vê-lo com os ouvidos, carregá-lo nos braços, senti-lo intensamente, criar imagens mentais, compreendê-lo, ouvi-lo novamente, vê-lo com o terceiro olho, contemplar, sentir seu eco, ouvir sua sombra, causar-lhe distorções; até ele aceitar que se encaixou em nosso acervo mental e entendeu que se tornou pedra em nossa palavra; carne do nosso conhecimento.
Quando começamos a nos envolver com poesia, tentamos distinguir o ato poético, de experiências outras. Depois, passamos à necessidade de mostrar, como esse ato irredutível se insere no mundo. Peço licença para dizer (aqui) um poema, oportuno, para o momento, pois que trabalha a função adversa; o poema não viaja, mas se entrega, enquanto poesia. Não sei de quem é a autoria; sei apenas que ficou famoso, porque recitado pela Claudia Ohana. “Quando em português se diz, eu tenho saudade de ti; em poesia se diz, há um lugar em mim, que ainda te espera. Quando em português se diz, tudo acabou. Em poesia se diz, ficou o que doeu. Quando em português se diz, foi só uma fase. Em poesia se diz, foi um pedaço de mim que precisei deixar ir, para eu continuar inteiro. Quando em português se diz, está tudo bem. Em poesia se diz, ainda estou juntando os meus pedaços, mas continuo aqui. Quando em português se diz, eu tenho medo. Em poesia se diz, carrego o coração nas mãos, e ele treme, sempre que a vida me pede coragem. Quando em português se diz, é só um texto. Em poesia se diz, é o que me salva, quando eu já não sei dizer o que sinto…
Poesia é isso. É o lugar onde a vida se explica, quando as palavras comuns já não chegam. Sem a poesia, a vida seria uma prosa? Não sei dizer. Eu sei que viver sem poesia é viver uma vida obstinada pela coisa aparente. É viver suas metades.
A Octávio Paz, um poema não pode ser constituído apenas de palavras, para não correr o risco de se tornar indizível. O poema precisa lutar contra a natureza das próprias palavras; precisa obrigá-las a ir além de si mesmas; ir além dos seus significados, ou não será nada mais do que manipulação verbal.
Explicando Octávio: a palavra é o fio condutor, mas, o que caracteriza o poema é a sua independência e multiplicidade de sentidos. Possivelmente, é o que o faz transcender. Importante é onde a palavra se deságua; a ideia que fica; a imagem definitiva traçada em seu conceito é o que transforma a poesia em expressão social.
Faz tempo que Bandeira e Drummond decretaram o funeral da rima; aquela coisa desmedida para rimar com a prima; e foi então que nos livramos de parentes indesejados. A poesia moderna carrega pouca bagagem; valoriza a consciência da crônica e não pretende ser terna, por ser poesia, mas tem pressa, pois escolheu poetizar com a modernidade. O moderno é ágil, claro e esperto. É o apressar-se lentamente. É o acalmar-se em plena euforia. A poesia moderna tem mais de verdade do que de palavra e aprendeu a se impor como filosofia.
Bandeira disse: Eu faço versos como quem morre!
Um poeta quando deseja produzir, ele se rói, morre por dentro, se reinventa e se revigora. A tudo, ele destrói. Tudo, ele reconstrói. Lembrem-se do início do texto: a poesia é um achado em construção constante? É a ideia buscando alento; é o cinzel nas mãos do aprendiz atento; é a beleza passando aonde a palavra se desdobra.