Os valores cristãos na política
Não confio nessa coisa de levar os valores cristãos para os poderes da República. O mínimo que aconteceria é que cada político ou agente público usaria esses valores conforme sua compreensão e interesses. Valores cristãos não são parametrizáveis; não são ajustáveis à vontade do freguês ou do pilantra explorador e demagogo da vez. Pelo que entendo, valores cristãos resultam em comportamentos adotados com base nos ensinamentos e exemplos deixados por Jesus e só podem receber tal nome se aplicados à risca, sem ajustes ou adaptações convenientes.
Vamos imaginar algumas respostas hipotéticas, verdadeiramente cristãs, em situações práticas:
– O Ministro da Fazenda pede cortes no orçamento do ensino fundamental, ao que o titular da Educação responde: – “Deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus”;
– O policial, após perseguir e capturar o meliante, conversa longamente sobre os valores morais e o libera: – “Vá… E não peques mais”;
– Um partido político entra com uma ação no STF contra políticos de outro partido ao que os ministros respondem: – “Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?”;
– Os congressistas rejeitam os projetos de armas e dizem: – “Amai-vos uns aos outros”;
– O diretor da Receita declara aos seus auditores: – “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus”;
– Em face a terríveis aumento da fome, mortalidade infantil e desemprego, o mandatário do executivo convoca uma reunião ministerial extraordinária, com participação de representantes dos setores da indústria, comércio e mercado financeiro, e declara solenemente: – “Senhores… Fora da caridade não há salvação”!
Já imaginaram a merda?! Seria um tal de bolsa-isso-bolsa-aquilo, cota-disso-cota-daquilo, que viraria uma zona só! Imaginem o desespero do Bonner, do Camarotti!
Por essas e outras, existe um negócio chamado Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, e um outro negócio chamado Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, da qual somos signatários, que, por si sós, já estão, implicitamente, coalhados de enormes valores cristãos. Leiam. Só nos cabe segui-los e, se fizéssemos apenas esses dois deveres de casa, Jesus já ficaria exultante de alegria conosco.
(09/2019)
[Nota do autor: A Constituição Brasileira estabelece que o Brasil é um Estado laico. A separação entre Igreja e Estado está implícita dentro dos direitos e garantias individuais, garantindo a liberdade de religião e a neutralidade do Estado em questões religiosas. Por isso, a laicidade do Estado é protegida como uma cláusula pétrea. E importante: a laicidade não deve ser confundida com ateísmo.
O artigo 19, inciso I, diz: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embarcar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”]