O inferno verde paulistano
Isolados pela marca indelével de suas diferenças, na altura do Parque Dom Pedro com a Consolação, o Solimões e o Negro confluem para a Paulista e ali correm serenos, silenciando apitos, buzinas, motores e faróis. Pelas ruas dos antigos barões, sobre os cafezais de outrora, por onde desciam avalanches de homens e máquinas, corre agora o Amazonas, encabulado e sem tato, entre torres de concreto e aço erguidas acima das árvores, dos edifícios e dos bancos, sobre as aves que se aninham nos flancos da selva de uma cidade à beira de um mentecapto.
O rio majestoso fundiu-se à cidade majestosa, como imaginou Macunaíma, visionário sem peia moral que sonhou juntar o rio à cidade para civilizar, de mãos lavadas, os heroicos peixes sem caráter. A selva cobriu as alamedas dos jardins com copas, limeiras e regatos, onde santos de todos os credos, sem aparato, vinham pescar jaús na PanAmérica, e as augustas lojas, outrora erguidas atrás de vitrines e de hotéis, multiplicaram-se, pela ação das águas, em condomínios de peixes e crustáceos brilhantes, para que dourados transparentes e haddocks lobistas de seus próprios mergulhos pudessem nadar no Trianon.
Não há campinas na Bela Cintra, não há campanas na Bela Santos, nem pesqueiros nas cheias da Transamérica. Há a força dos satélites que, pulsando da maçã americana, pescam as batidas do coração no inferno verde paulistano – uma onda de sonhos, em árvores e águas e plantas a balançarem os galhos sobre riachos, onde índios trepam, riem, fumam, sonham e pitam seus cachimbos em plena gênese transmutatória.
Vista do céu, a selva habita o Ibirapuera e tange para longe, o monstro dos bandeirantes, empurrando-o para o fundo de suas águas. O inferno verde se alastra pelos quatro cantos da desvairada Amazônia: uma bacia de ruas, minhocões e peixes que habitam sinais, arcos, barcos, teatros e avenidas, escondendo a garoa sob diademas, estações finais, pontes, metrôs e marginais.
Onde estaria o rio Madeira nesse inferno? Estaria visitando o Juruá e o Tocantins no purgatório? Na Cracolândia, em Santana, Vila Guilherme e Carandiru, morrer é eterno. Em Pinheiros, Morumbi, Alphaville e Itaim, morrer é ilusório.
Quando a floresta de aço toca os címbalos dos céus, a Rubem Berta fecha a porta para aviões. Na onda azul das queimadas, no rush de pacus e de imigrantes, onde esse mar é mais vibrante? Nas esquinas de milhões e milhões de condenados, ou no asfalto onde cardumes de pintados e surubins infames se enroscam em cercas infinitas de néons de arame?
As tendências de rua arrastaram correntezas de meninos tristes e velozes, que vagavam com a multidão de esfomeados. Essas correntezas arrastaram para si, o rico e o muito rico, afogados nas profundezas de espigões, onde se imaginam precavidos, salvos do nortista cansado, do homem vadio e da imensa legião de polvos iludidos com precatórios.
O rosto de São Paulo é triste, e nada é mais triste do que olhar o efeito azul de suas queimadas. Mas onde estará a sua maior tristeza? No olhar apagado voraz do madeireiro; no olhar insano, aceso, do estrangeiro; ou no olhar daqueles que põem a selva nos escombros sem carregar nos ombros a vergonha debulhada em cada palmo de suas pegadas?
O Tietê cristalino arrastou o anhangá para o Tefé, enquanto seu baú de preciosidades venceu as águas rasas de Guarulhos, alcançou a Dutra e a Anhanguera, sem barulho, voando no rio silencioso das chaminés. Na margem esquerda do Amazonas, polícias, travecos e transversais fazem as suas buscas insidiosas. Na margem direita, becos e favelas sofrem o flagelo dos marginais impetuosos.
Em São Paulo, luz é correnteza de trens, vencendo a escura mata, onde se mata, e a barra afunda a bateia de esperança, acolhe e escolhe sonhos do mal e do bem; onde pastores milionários sangram nas filas, e feiticeiros chafurdam na lama, em que turcos, ciganos e boêmios invadem e vendem anos-luz, em frascos de programas.
A Amazônia, assomando-se aos rios e estradas apinhadas de peixes graúdos, ensina aos namorados sem paixões cosmopolitas, a viverem na selva abençoados por Nobrega e Anchieta; por nossa senhora do Ipiranga e de todas as letras; ensina-os a engastarem pérolas em redes e juquiás. Ensina a cristalizarem suas tetas em levas de vans, motos e helicópteros que sobrevoam um planeta em que peixe algum quer se afogar.
Quando cai a noite sobre o formigueiro de Dante, a cidade põe os olhos sobre feixes de ideias luminosas; reabre aos seus filhos e ao imigrante, palácios de requintes e de artes. Ao amanhecer, ela reassume o seu papel de metrópole de aço, de braços, de armas e de homens que não se abatem, nem se desencantam, mas, acordam e despertam o país com seus moinhos de ventos: sua força de trabalho – o mais nobre, sublime e mais importante monumento.
Onde, nessa lira amazônica mezzo paulistana, corre a Lopes Chaves? Haverá mapa que a descreva? Envelheço envergonhado de não saber nadar por essas ruas, onde milhões de rostos ignorados, ignoram a simplicidade e a pureza. Onde, encantado, Mário de Andrade vive um ócio de quinhentos anos, afastado da arte pueril das letras. E Oswald de Andrade, um trovador de mil anos de idade, sacrificou a vida por uma sopinha de letras capaz de inundar e enaltecer o coração da sua bela cidade.
Carlos Kahê